A debutante que não debota.


Nunca fui de sangrar muito. Rapariga regular, de fluxo médio, penso com Abbas (Mamma Mia!), para não sangrar o sofá de veludo da madrinha. Puta. Emigrou antes de cumprir a obrigação de me oferecer anualmente, com carácter vinculativo, bonecas de plástico rijo com pilinha (já espreitava a modernidade da inclusão) e jogos de tachinhos para o warm up da vida doméstica. Nem sei para onde terá ido. Foi de certeza para uma terra longe do nosso álbum de família. Memórias da sua fronha pouco amadrinhada, só mesmo em Kodak com cores caramelizadas de fotografias roídas pelo pó e já passadas.


Humm-hum. Soube bem este bolso de fel. Andava aqui com a purga atrás da orelha…
Por isso é que gosto de usar babete quando resolvo chafurdar em repastos de mal dizer.
Voltando à ferida aberta que me trouxe aqui - Esta brecha que sangra há gerações e gerações de vaginidade, tudo pelo milagre divino da mãeternidade.
Um dia reparei que a palavra maternidade tem eternidade lá dentro. Concluí, graças aos estudos inatos que trago na minha bagagem de criatura natural, que o talento para parir, não é mais que uma matrioskização da condição humana. 
Está dito. Façam com esta constatação o que quiserem. Mas nada de aparvalhar com piadas vossas a tentar acrescentar valor para brilhar, nem que seja no lusco fusco do refugo aflito da minha iluminada criação.

O período apareceu tarde. As maminhas também. Se não viesse aos 16 tínhamos o caldo entornado, dizia o meu médico pediatra Jaime Mendes, irmão do cantautor Carlos Mendes. Mas veio. Exactamente aos 16. Também deve ter tido medo ou respeito das mãos pesadas do meu querido médico Jaime. Ou de bater com os costados na maca de napa fria, num dia de inverno à antiga, num consultório de comunista, em preparos menos preparados, de cuecas feias e vergonha a tira colo.
Todas as minhas amigas pareciam minhas mães. Calmeironas, mamalhudas, cabeças encarniçadas, já com barba e anca porta aviões. Todas desenvolvidas, ao nível da criação de campo, com ração à base de couve portuguesa ali do entroncamento.
Eu era fuinha e mexia-me demais para repararem em mim. Os senhores leitores já devem saber que um alvo em movimento é sempre mais difícil de atingir.
Andava às voltas sobre mim mesma, à procura da cauda e do efeito das coisas da vida. Andava atrás de ser mulher. Sempre atrás, no último lugar da fila para se existir. Perdi o autocarro da maturidade tantas vezes que o meu corpo esqueceu-se de crescer. E queria  foder!! Ai queria tanto. E queria fumar, nem que fosse papel de lustro e experimentar todas as drogas boas, más e assim assim. Os meus pulmões ainda se lembram do cheiro a trabalhos manuais.

Como só fui menstruada aos 16 anos, meti na minha cabeça de cálculo preguiçoso que a menopausa só viria no última carreira da Carris.
A minha mãe começou na pré menopausa aos 45. Lembro-me tão bem, até do tom da pele dela, do penteado, das roupas, das expressões, das arrelias fulminantes e do novo estatuto que vestiu orgulhosamente com o seu primeiro casaco de Vison. Nasceu ali uma nova mulher. Confiante na sua experiência de vida, de braço dado com a sapiência que nem sabia que tinha, mas já a usava ao peito, emoldurada por uma frase que usava muitas vezes como trunfo para se impor à vida’: Olhe que este rosadinho é do sol. Tenho 45 anos. Não ando aqui brincar’. E terminava em excelsa apoteose: ‘A porta que tráz é a porta que leva’. Nunca percebi muito bem esta parte. Mas cantava alegremente este hino à emancipação, em uníssono com a minha querida mãe.


Mãe de vontade feral, decidida, boa mira e gatilho leve, fez logo pontaria ao tratamento de compensação hormonal.
Apontou, disparou e acertou em cheio nos objectivos estratégicos da boa e velha Farma. 
O ginecologista bateu palmas (a salivar pelos incentivos), depois de tirar as mãos do útero da minha mãe. Claro.
Já a minha querida avó Ilda, mãe do meu lindo paizinho - devem estar neste momento a almoçar pataniscas na mesa da cozinha do perfeito nada eterno, a comer de boca aberta e a discutir as miudezas da vida aos altos berros. Aqui, neste tasco do outro lado da vida, a saudade é prato do dia.

Trouxe a minha querida avó Ilda para esta Chafarica temática, porque me lembro de 2 verdades que dizia com despudor e pragmatismo popular: que tinha perdido a conta aos abortos que fez e que nunca tinha tomado nada para a menopausa. Sentiu uns calores e tal,  mas diz que se confundiam com a brisa morna dos peidinhos do meu avô João.
A minha avó Ilda tinha alma de fadista, voz de rouxinol, coração de cozinheira, mão de costureira e muito jeito para esborrachar pintainhos com os seus tamancos de madeira. Pobres projectos de galinha. :(

Vou embrulhar este recado, que carinhosamente vos dirijo, com a anunciação oficial da minha Pausa no sangramento  divino. O recado vai junto com uma adjudicação de tranquilidade que vos garante paz biológica e espiritual. O período pausa, mas a vida corre fluída e ágil, esperta e tenaz, com revelações iluminadas, descobertas dentro e fora, curiosidade, meninice de quem não sabe bem o que aí vem e um feeling fresco de bom tom, aquela intuição que faz o rácio perfeito entre o sentir do cérebro e a razão do coração.
Não percam o próximo recado que tenho para vos dar. Prometo emoção, traição, medo, , muuuitoooo medo, ui, sexo sem bolinha, temas escorregadios, verdadeiros lubrificantes do motor propulsor da alma. Só não vos posso prometer sangue. ¯\_()_/¯


Lemo-nos na próxima pausa. Até lá, é sempre a andar.

Comments

  1. Categoria de prosa. Desejo que continue a ser uma excelente paragem de sangramento. Um grande bem haja.

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  2. Estimado Hugo., muito obrigada pelas palavras! :)

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  3. Ansiando ansiosamente o próximo recado. Obrigado por partilhares o que te vai na prosa. Até lá, teremos baterias, #al_moços, ..., de KATgoria.

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