O jogo do 'Queime-se'!
Há 3 meses que não aparece. É a segunda vez que me deixa nesta sala de espera sem quadros nem revistas para distrair o ranger do pensamento. Eu que nem marquei consulta, vejo-me aqui ordeiramente sentada num corpo de mulher igual às outras. A rainha das certezas saiu de casa sem respostas na algibeira. Não sei nada. Pronto. Sou uma humilde carpinteira deste barco à deriva.
Diário de bordas: há 6 meses que não aparece. - ‘Que mulher resta desta luta contra o estrogénio?’ Pergunta a minha vagina.
Amanheci esquecida de desejo. Ontem à noite fiz uma lista: esfregão da loiça, chá, limões e brincar comigo mesma. Mas depois passou-me da ideia. Vou-me esquecendo de acender as velas que dão bom ambiente à minha casa interior. Mas estou acesa!! Do pescoço para cima.
Será que é assim que soa a orquestra do desprendimento? Estarei a tornar-me mais alma que gente? Às vezes penso que os calores têm um propósito maior: exalar o dom da fertilidade e passar o testemunho às mulheres do futuro. Porque, pensando bem, a Terra é mãe, Ventre absoluto de todo o infinito. Manta quente e super absorvente de tudo o que imprimimos, mesmo que involuntariamente, na atmosfera volátil do tempo. Eu sou só mais uma, mas, juntas, somos tudo.
Os mamilos já não se queixam e a barriguinha marsupial que antecede a minha chegada aos sítios onde vou, aninhou-se definitivamente na minha constituição, como um alpendre de pitorescos contornos. Há uma certa ternura neste novo apêndice. Decidi aceitar. A alternativa seria cortar com a cerveja e a massa. Bitch, please… Há limites.
A minha voz interior está cada vez mais eloquente. Leia-se, louca e quente. Ah ah ah ah … Pudesse eu rir de outra mentira qualquer. Uma mais fresca, por exemplo. Tenho sempre um leque comigo. E mais 4 na mochila. 1 para as mulheres inflamáveis que me aparecem no caminho, e são muitas. Cada vez mais. A menopausa está na moda. Outro para as bichas vaporosas que desabrocham à noite nas pichas de dança, outro para eventuais desarranjos do meu leque de mão e, finalmente, 1 para os bebés dos amigos estragarem como deve de ser.
Percebi que quanto mais abano mais inflamo. Tropeço numa espiral de exigências que o meu corpo não ouve. E ferve como um vulcão que lava tudo. Alguém que me frite uns ovos com bacon nesta brasa de mulher!! Alguém que me aproveite!!
O truque agora é respirar a 360º e criar espaço para a aflição do ego. E, já agora, para o sossego. Porque o vulcão não para enquanto a mente não lhe der razão. O caminho é desistir com estilo. Abraçar o fogo e comer muitos gelados. Caminhar como se fosse uma representante ancestral de um Deus de última geração.
Ando a ponderar adaptar a minha forma de vestir a esta nova condição. Trapos leves, toalhetes, desodorizante, passo firme, olhos no horizonte e coração ao peito. A jogada é a seguinte: cartas na mesa e status quo pokeralho. Estou all in for the pause.

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